Quando o ano começa
Como falhar no ano novo antes mesmo da meia-noite
— Já está quase na hora — disse ela, já impaciente.
— Hora de que? — ele respondeu, sem prestar muita atenção.
— Em que mundo você está, homem? Hora da Terra completar uma volta no sol. Aliás, queria saber quando resolvemos que isso é “mágico”.
— Ok, pronto — disse ele, mostrando o papel para ela. — Terminei minha lista de resoluções para o ano novo.
Ela pegou o papel e leu em voz alta:
— “Resolução número um: não fazer mais listas”.
— Exato.
— Mas você acabou de fazer uma lista.
— Mas só tem um item.
— Não deixa de ser uma lista por isso.
— Ok. Mas é a última.
— Uma lista dizendo que você não vai fazer mais listas continua sendo uma lista.
— É uma lista contra listas. Se anula.
— Não se anula não. Você violou a resolução no exato momento em que a fez.
Ele coçou a cabeça, depois a barba. Pegou o papel de volta, riscou e escreveu: “não fazer resoluções de ano novo”.
— Agora sim — disse ele, satisfeito.
— Mas isso é uma resolução — disse ela.
— Agora é uma “não-resolução”.
— Você resolveu não fazer. Logo, fez uma resolução.
— Ok, espertinha. Então o que eu faço?
— Só não faça.
— Mas… se resolvo não fazer nada, isso não é também uma resolução?
— Se você simplesmente “não fizer”, sem resolver, aí não é.
— Como se deixa de fazer algo sem antes resolver não fazer?
— Então, sei lá, deixa acontecer.
— Deixar acontecer é uma decisão. Logo, uma resolução também…
Ela esfregou as mãos suavemente, depois levou à boca, como quem segura palavras hesitantes. Pegou o papel das mãos dele.
— Tem razão. Você está preso num loop ontológico…
— Num o quê?
— Olha. Você não pode fazer resolução, não pode não fazer resolução, não pode resolver não fazer resolução. Está condenado a um paradoxo.
— Não posso deixar nada pendente, dá azar. E se eu fizer uma resolução sobre outra coisa qualquer, tipo “comprar pão todo dia”.
— Mas você já compra pão todo dia.
— Exato. Daí não é resolução, é continuação.
— Entendi… é uma boa saída. Fazer resoluções de coisas que você já faz. Assim você cumpre todas.
Ele pegou um papel novo e começou a escrever com entusiasmo:
— “Resolução um: respirar. Resolução dois: piscar os olhos…”
— Espera. Aí você é só lista de reflexos involuntários.
— São resoluções que eu sei que vou cumprir!
— Não são resoluções, são involuntariedades biológicas.
— Mas estou resolvendo continuar fazendo elas, não conta?
— Não vale. Você não tem escolha. Seu corpo faz isso sozinho.
Ele parou de escrever e ficou olhando para o papel.
— Sabe — disse ele devagar —, acho que você acabou de resumir toda a questão das resoluções de ano novo.
— Como assim?
— A gente faz lista de coisas que ou nunca vai conseguir fazer, ou que já faz sem precisar de lista.
Ela sorriu.
— Feliz ano novo.
— Feliz ano novo — ele respondeu, amassando o papel.



Sempre um prazer acompanhar teus textos! Que 2026 nos traga muito mais sorrisos do que choros — com ou sem resoluções 😅🥂