Oração vazia
Sobre joelhos que dobram e corações que preenchem
Levei anos para entender que minha avó falava das coisas sábias, daquelas que sustentam a gente quando tudo desmorona.
Ela tinha joelhos de quem carregou o mundo. Quando ela se sentava na cadeira de balanço, ouvia-se um estalo surdo, como se os ossos anunciassem o desembarque de todas as dores e memórias que ela guardou. “Vai passar”, ela dizia.
Os joelhos são humildes. Eles dobram. Aceitam o chão. E mesmo assim, nos erguem de novo.
Hoje, regando as plantas na varanda, pensei nela. A água escorria pela terra seca, e eu percebi que havia esquecido daquele vaso por semanas. A samambaia resistiu de teimosa, com suas folhas amareladas mas ainda vivas.
É curioso como a gente esquece o óbvio. Esquecemos que as plantas precisam de água, que os amigos precisam de presença, que os abraços na família não são eternos. Esquecemos que o corpo é templo e cansaço, que o desespero de hoje será névoa amanhã.
Andamos por aí carregando culpa em lutas que não são nossas e em lutos que nos atravessam. Esquecemos que o perdão começa no espelho, naquele olhar que não conseguimos sustentar. “Você merece outra chance”, deveria ser nossa oração diária.
O êxito passa. A derrota também. E entre um e outro, se há uma coisa que não vai embora é o amor verdadeiro. Não aquele dos filmes, com trilha sonora e final feliz. Mas o amor que fica, mesmo quando tudo vai embora. O amor que resiste à raiva, que atravessa o silêncio, que se recusa a desistir. Esse amor não passa. Ele se transforma, amadurece, ganha rugas e idade. Ganha profundidade. Mas fica.
Minha avó dizia que a oração não precisa de igreja. Não precisa ser vazia. Pode ser feita na cozinha, em meio as cascas de batata. Pode ser feita transbordando silêncio na fila do ônibus, ou cheia de voz quando a solidão aperta. E a caridade, dizia ela, não está na qualidade ou quantidade do que se dá, mas no como se dá. Gentileza não como ocasião, mas como ação permanente, daqueles que seguram a porta, que sorriem sem motivo, que perdoam sem alarde.
Perdoar como condição para viver, não como virtude, não como favor. Porque quem não perdoa carrega pedras no peito. E pedras pesam. E joelhos cansados não aguentam tanto peso assim.
Um dia os nós se desfazem, mesmo aqueles que juramos impossíveis. As lutas cessam, e os lutos, aqueles que machucam fundo, viram saudade. E saudade, embora doa, é doce. É a prova do vivido, de que algo verdadeiro existiu.
Pra isso a vida pede pouco: que a gente regue as plantas, que encontre os amigos, enquanto há tempo; que se abrace quem se ama, enquanto há braços. E que a gente cuide dos joelhos. O resto vai passar.
E quando tudo passar, quando olharmos para trás e virmos a estrada percorrida, vamos entender que o que ficou não foi o desespero nem a glória. Foi o abraço que demos. Foi o perdão que nos demos. Foi a terra e o jardim resistente. Foi a gentileza que plantamos sem esperar colheita. “Cuida do que importa, menino. O resto, vai passar”, ela diria.
Minha avó não está mais aqui. E agora, começo a sentir estalar meus joelhos também. E toda vez que esqueço de aguar as plantas, toda vez que deixo o medo me paralisar, ouço sua voz mansa.
Ela tinha razão.



Tua a vó é sábia! E pelo amor de Deus, lembra de regar essas plantas que eu já tô quase indo aí fazer um resgate 🥹😅
Lindo texto!