O grupo errado
Às vezes o lugar errado te acolhe melhor que o certo
Aconteceu numa quinta-feira, às 17h37, hora em que o cérebro humano opera em seu nível mais baixo de discernimento. A luz entrou mal no olho, celular na mão, o polegar escorregou, e antes que eu pudesse processar o que tinha feito, já era tarde: eu tinha aceitado o convite para o grupo “Projeto Alpha - Sprint Q3”.
Eu não sou da equipe Alpha. Não sei o que é Sprint Q3. Nunca ouvi falar de ninguém chamado ~Valdecir G&V “amor infinito”~, que aparentemente era o administrador do grupo e me havia adicionado por engano, provavelmente confundindo meu número com o de outro fulano.
A solução óbvia era sair.
Fui sair. Vi, antes de apertar o botão, que o grupo tinha 23 participantes. E que, ao sair, o sistema anunciaria para todos os 23. Recuei.
Qualquer pessoa sã diria que isso não é nada. Uma notificação. Automática. Que ninguém daria com atenção. Mas eu conheço grupos de trabalho. Grupos de trabalho ficam em silêncio durante semanas e então alguém some e de repente todo mundo acorda, lê o histórico inteiro e começa a especular. “- Quem é esse?”, “- Por que ele saiu?”, “- Será que ele viu alguma coisa que não devia?”
Fiquei no grupo, então. Nos primeiros três dias não disse nada e ninguém disse nada para mim. O grupo funcionava numa frequência que eu não dominava: siglas, nomes de sistemas, referências a reuniões que eu não tinha participado. De vez em quando aparecia uma mensagem do ~Valdecir G&V “amor infinito”~ convocando para uma call. Eu não entrava na call. Ninguém perguntava por que eu não entrava na call. Isso era ao mesmo tempo um alívio e levemente perturbador. Eu estaria em falta com a equipe?
Na segunda semana, alguém perguntou no grupo s onde estava o arquivo da apresentação da semana anterior. Silêncio de 40 minutos. O tipo de silêncio que se instala quando todos sabem a resposta mas ninguém quer ser a pessoa que vai abrir o drive, procurar, formatar o link e mandar. Sem pensar, mandei o arquivo. Afinal, eu estava em falta com minha equipe, precisava mostrar serviço.
Eu tinha o arquivo porque trabalhava no mesmo andar e a empresa usava o mesmo servidor para todo mundo. Respondeu com um agradecimento e dois pontos de exclamação, que numa escala de entusiasmo corporativo equivalem a uma declaração de amor. Dois outros participantes mandaram o joinha. Um terceiro mandou um coração. ~Valdecir G&V “amor infinito”~ nada disse, mas eu senti: eu tinha me tornado útil!
A partir dali passei a existir no grupo de uma forma que não conseguia mais desfazer. Pescava os temas que foram debatidos só pelas dúvidas que postavam, como quem estuda para uma prova de uma matéria que nem está matriculado. Cheguei a deixar relatórios prontos, vai que alguém pedisse. Eu era um oráculo involuntário da infraestrutura, o esteio silencioso do Sprint Q3, o homem que não pertencia mas que, por não pertencer, conhecia tudo que os que pertenciam tinham deixado de notar.
Foi no trigésimo segundo dia que ~Valdecir G&V “amor infinito”~ me mandou mensagem privada. Fora do grupo, direto para mim. Veio a notificação e meu coração foi para o estômago. Era isso. O fim. A expulsão educada. Uma demissão talvez... mas, eu nem trabalhava naquele setor, precisei me relembrar. Mesmo assim, me preparei para a saída mais humilhante da história do serviço de mensagens instantâneas.
Mas não. Era só uma figurinha de “Bom dia”. E sabe o que isso significa? Validação. O chefe do Projeto Alpha - Sprint Q3 agora tem um preferido! Já é mais do que tive, em anos, no meu próprio setor.



Muito interessante como o texto mostra o quanto a gente prefere pertencer, mesmo que seja por acidente.
Esse desconforto de sair do grupo diz muito sobre medo de exposição e julgamento.
E no fim, é curioso como o reconhecimento veio justamente de um lugar onde ele nem deveria estar. Fica a sensação de que pertencimento às vezes é mais sobre ser útil do que estar no lugar “certo”.
Isso é real? Se for, muito massa pqpqq. Se não for, ótima ideia.