Laurel a granel
Esperando a revolução enquanto cozinha o feijão
Na mitologia grega, Apolo se apaixonou por Dafne. Até aí, tudo bem, também já fui apaixonado por uma Dafne no colégio, e não era correspondido. No caso de Apolo, também não, e olha que ele era um deus grego.
Apolo perseguiu Dafne, até que ela pediu ao pai que a transformasse em árvore. Uma solução prática, se você pensar bem: pra certos amores, talvez seja mesmo o melhor caminho para desabrochar. A árvore dessa história era um loureiro, e desde então, as folhas de louros viraram símbolo de glória.
Os louros coroavam os heróis, enfeitavam os pergaminhos e adornavam as cabeças romanas ilustres daqueles que atingiam os grandes feitos. Eram folhas simples, verdes, mas carregadas de história. Simbolizavam a coragem e a conquista.
Louros da vitória, louros da imortalidade. Hoje usamos para temperar o feijão.
Ontem, comprei feijão, junto com a cebola e o charque pra fazer feijoada. E, já em casa, enquanto via aquela folha de louro boiando na panela, lembrei dessa história de Apolo, Dafne (a deusa, não a do colégio), e algo me incomodou: nós matamos todos os nossos símbolos.
Digo, transformamos tudo em coisa comum. Banalizamos. O louro que emoldurou cabeças ilustres agora boia ao lado de um pedaço de carne desfiada. E ninguém morre por causa disso. Ninguém sente a gravidade do momento. Nem eu senti, francamente. Mas, é estranho que aquelas folhas que uma vez significaram conquista, coragem, imortalidade hoje esperam em saquinhos de supermercado ao lado da pimenta-do-reino e do chimichurri.
Os heróis de agora. Aonde estão? Não existem mais. Ou existem mas ninguém reconhece. Existem em hospital salvando vida de gente que não queria ser salva, em escola ensinando criança que não quer aprender, em casa criando filho sozinho enquanto trabalha de madrugada. Existem e ninguém oferece nem um saquinho de louros.
Minha avó fazia uma boa feijoada e não conhecia a mitologia, se alguém lhe dissesse que aquela folha coroou reis, ela responderia que coroar prato de comida não era coisa ruim. Talvez tivesse razão, isso não muda absolutamente nada. A folha de louro continua boiando na panela, e os heróis, aqueles que ainda conseguimos reconhecer como heróis, morrem de indiferença, não de overdose. Morrem porque lutam em silêncio, e isso não rende likes.
Vivemos a época dos heróis de papelão, feitos num dia, descartados no outro. Gente que nunca construiu nada de duradouro dizendo à câmera que você também pode. Gente sem coragem vendendo coragem. Gente pobre de espírito vendendo riqueza de espírito. E vendendo bem, diga-se de passagem, vendem mais que os que realmente têm algo para dar.
Aqui é o ponto onde eu deveria dizer que sou otimista. Que história funciona em espiral. Que crise é preparação para próxima revolução. Que daqui a vinte anos a gente volta a oferecer louros aos verdadeiros heróis. É verdade? Pode ser. Mas também pode ser que a gente continue comendo com feijão e ignorando quem realmente merecia. A gente envelhece esperando pelo dia em que as coisas mudem enquanto a história continua igualzinha, se movendo na mesma velocidade entediante de sempre.
A pressão da panela apitou, me despertando daquele transe melancólico. O feijão estava pronto. Despejei o louro na panela, e assistir aquela folha desaparecer na gordura quente foi tipo acordar de um sonho ruim.
Não que uma boa feijoada não seja também um feito digno de admiração. Em tempos difíceis, até isso já é meio heroico. A história nunca foi feita de seres prontos. Sempre foi de gente imperfeita, errando, tentando, resistindo, e às vezes acertando em cheio.
Seja na Grécia, Roma, ou na cozinha mesmo.



Aprender a ver o heroísmo do cotidiano por si só já é uma grande batalha, dirão que a pessoa virou quixotesca
Gosto como você puxa um fio e termina em feijoada 🙂