Firmino da Luz tinha cinquenta e oito anos, mãos suaves de relojoeiro e um coração duro que quase desistiu, há uma década. Mas agora estava bem. Achava que sim, ao menos. Tudo em seu corpo funcionava como as engrenagens bem lubrificadas dos relógios que ele consertava. As articulações, os pulmões, e até o fígado calejado pelo boteco aos domingos. Mas aquela exceção, discreta e falha, voltou a entupir repentinamente e parou de pulsar. Um cano de pia velha que para na casa vazia, sem ninguém pra chamar o bombeiro a tempo.
Foi o bastante. A dor chegou sem pedir licença, cresceu depressa demais para caber dentro do peito e, quando parecia que ia estourar, começou a recuar, devagar. Ele sentiu o ar parar de entrar. Depois veio um alívio que tomou todo o seu corpo. Por um instante teve a nítida sensação de flutuar, leve, acima da própria bancada de trabalho, entre as lupas e os ponteiros parados de doze relógios que ele nunca tinha conseguido consertar.
Foi então que notou a fila. Não havia túnel de luz, nem portão de nuvens, nem nada do que os folhetos da paróquia prometiam. Havia era uma sala de piso xadrez, cadeiras de plástico e canetas acorrentadas ao balcão pra que ninguém as levasse. Um painel eletrônico de senhas cuspia números numa ordem que desobedecia qualquer lógica conhecida: C37, H4, HCHW4, A1002, C37 de novo... No teto, uma única lâmpada fluorescente zumbia rodeada por uma nuvem de mariposas tão bonitas em pleno voo que pareciam desenhadas a lápis.
Firmino tirou uma senha, A001. Chamaram-no antes que pudesse se sentar.
O guichê tinha uma placa de acrílico barato, rachada, que indicava o departamento, algo como setor de “sessão de matéria consciente”. Ou seria cessão? Atrás dela, um homem calvo de uns quarenta anos, gravata torta, tomava café num copo de plástico.
— Firmino da Luz — leu ele, sem erguer os olhos.
— Sou eu — resmungou Firmino, ajeitando-se à frente do balcão.
— Cinquenta e oito anos. Relojoeiro.
— Sim, era.
— Senhor Firmino, aqui não usamos o pretérito. Complica a papelada — disse o atendente, batendo três vezes num carimbo. — O senhor sabe por que está aqui, certo?
Firmino só balançou a cabeça, negativamente. Disse que estava consertando o relógio e de repente, agora estava ali, na fila de algum lugar do juízo final.
— Então o senhor ainda não fez ideia do trabalho que dá manter o universo equilibrado. Vamos lá. É que assim, existe uma lei que rege nosso trabalho, que aqui no setor chamamos de “conservação do instante consciente”. Ninguém escreveu isso pra ser bonito, acho que é coisa feita por economista, não poeta. Enfim, basicamente é uma regra universal em que a quantidade total de “agora” no cosmos é fixa. Não se cria nem se destrói instante consciente do nada, só se transfere.
Girou a tela do computador, um monitor de tubo CRT de carcaça bege que um dia foi branca. Mostrou uma planilha verde sobre fundo preto, linhas e linhas de nomes.
— Está vendo? “Firmino da Luz”, tinha um saldo positivo até 2037. Só que hoje, às 23h48, abriu um déficit urgente numa conta vinculada à sua. Parentesco de primeiro grau, então é protocolo automático: o sistema busca o parente mais próximo com saldo suficiente e transfere o que precisa. Tudo conforme o artigo 12.847, parágrafo 392, inciso z, do manual de procedimentos. Agora me dê um minuto que eu já vejo de quem partiu a solicitação — e continuou — Quatro funcionários pra cobrir seis distritos, peço paciência, pode demorar um pouco mais.
O funcionário digitou, digitou, e encontrou.
— Aqui está, Aurora Nascimento da Luz. Nasceu há seis minutos, no hospital municipal. Cordão enrolado no pescoço, ficou sem entrar ar quase dois minutos. O sistema calculou o déficit e foi buscar no parente vivo, mais velho, com saldo de vida alto. No caso, o senhor.
Firmino lembrou então, com aquele arrependimento que só vem tarde demais, do celular vibrando na bancada por volta das dez, enquanto ele lutava com a corda de um relógio cuco sem conserto há meses. Não tinha atendido.
— Então foi isso, o parto da minha filha! Deve ter adiantado então. A minha neta ia se chamar Aurora.
— Já se chama — disse o funcionário, sem nenhuma delicadeza, mas também sem nenhuma crueldade, do jeito seco de quem trabalha demais para adoçar as próprias frases. Empurrou um formulário por baixo do vidro.
— O senhor pode contestar a transferência. Tem direito. Preenche esse aqui em três vias, com justificativa, e devolvemos o seu saldo. Não é instantâneo, mas costuma ser aprovado em poucos minutos nesses casos, porque tecnicamente o senhor não deu autorização prévia — ele fez uma pausa, para em seguida dizer, mais pausadamente — A gente só avisa das consequências: se aprovado, a conta solicitante volta a ficar em débito.
O formulário tinha um campo para nome, um para motivo do pedido, e um espaço enorme, desproporcional, que dizia apenas “observações”. Firmino pegou a caneta, mordida na ponta, e ficou olhando as mariposas reluzentes na luz do teto, todas absolutamente vivazes. Uma pousou no balcão, e o atendente logo a espantou para ela voltar para a luz.
— Não se preocupe com esses bichos. São instantes que ninguém reclamou de volta — disse o funcionário, já enchendo outra xícara de café, e seguiu como se contasse uma fofoca — Quando alguém morre e não sobra ninguém pra herdar o saldo, o sistema não sabe o que fazer com o excedente. Não pode devolver pro cosmos, seria muita burocracia. Aí o instante fica aí, e materializa. Vira bicho pequeno, alguma coisa que voa perto da luz e não incomoda ninguém.
Firmino parou. Escreveu o próprio nome no primeiro campo. No campo do motivo, escreveu Aurora Nascimento da Luz, sem mais nada. Deixou o campo de “observações” em branco e devolveu o formulário sem assinar, empurrando por baixo do vidro do mesmo jeito que o funcionário tinha empurrado pra ele.
— O senhor não assinou.
— Eu sei.
— Sem assinatura eu não posso processar o pedido de contestação.
— Eu sei — repetiu Firmino, e pela primeira vez desde que sentira a dor no peito, achou graça de alguma coisa. Ainda sobrava, ali no fim de tudo, a graça. — Não quero contestar nada. Só queria registrar o nome dela uma vez.
O funcionário olhou para ele por mais tempo do que qualquer coisa naquela sala tinha durado até então. Depois carimbou o formulário. O som da borracha batendo em papel pareceu, por um segundo, mais solene do que qualquer sino de catedral.
— Processado, sem contestação. Próximo.
Não houve luz, nem coro, nem nada. Só um afrouxar, como se alguém estivesse desapertado um a um os parafusos que prendiam juntos cada um dos cinquenta e oito anos. Firmino sentiu o próprio corpo perder o contorno, devagar, do jeito que um relógio perde a corda sem que ninguém note até o ponteiro parar de vez. A última coisa que enxergou foi a nuvem de mariposas ao redor da lâmpada se abrindo, por um instante, para deixar espaço para mais uma.



Que lindo texto!