Ainda
Pra quem ainda está aqui, de alguma forma
O despertador tocou cedo. Não porque eu queira. Mas porque lá do outro lado da cidade a vida começa a funcionar às oito, e entre eu e lá existe um trajeto, e entre o trajeto e o acordar existe a necessidade de parecer apresentável, e entre parecer apresentável e o travesseiro existe exatamente esse intervalo de duas horas e meia.
Sempre penso que, não aguento mais. E toda manhã acordo e aguento mais um pouco, o que significa que eu tenho mais capacidade de sofrer do que eu imaginava. Obrigado, evolução. Muito útil isso aí.
E é todo dia essa negociação silenciosa, esse contrato tácito renovado sem cerimônia, sem testemunha, sem cartório, sem nem assinar: só mais um café, só mais uma tarde, só mais uma chance de que alguma coisa pequena e gratuita apareça no meio do caminho e justifique tudo. Até agora, sempre aparece. E no fim do mês chega um número na conta que é ao mesmo tempo a prova de que você existiu e a prova de que isso não foi suficiente.
A gente passa a vida inteira esperando o momento em que vai de fato não aguentar mais. Como se houvesse uma versão definitiva do limite, uma parede final. Mas o que a gente descobre, e ninguém avisa, é que o limite não é uma parede, é um horizonte. Você caminha, ele recua. Você chega exausto onde achava que era o fim, e o fim abriu uma janela e foi embora. O Sísifo pelo menos tinha a pedra e sabia o tamanho do problema. A gente empurra algo que muda de peso todo dia. E essa meta só aumenta todo mês.
E no meio dessa exaustão toda, aparece uma solução. Ela sempre aparece. Você está cansado? Existe um produto. Você está vazio? Existe uma versão premium do produto. Você não tem tempo pra viver? Compre uma viagem que você vai fotografar mais do que sentir. Um jantar que você vai postar antes de provar. Um sofá enorme e caro pra descansar num apartamento em que você passa só três horas por dia. É um sistema elegante, você tem que admitir.
Tem uma certa sabedoria que a vida tenta nos ensinar e que a gente resiste com toda energia que: o presente não pede pra ser suportado em bloco. Ele se oferece em fatias finas. Um minuto. Uma xícara. Uma conversa que não estava no roteiro e durou tempo demais e foi boa por isso. A gente é que insiste em carregar o mês inteiro nas costas numa segunda-feira cedo, arquiteto do próprio esmagamento.
O sofrimento humano tem muito de antecipação e pouco de agora. O agora, na maioria das vezes, é apenas agora. E passa.
Força a gente não tem; ou tem aos trancos, ou empresta de alguém e esquece de devolver. Aguentar é outra coisa, é uma espécie de curiosidade resignada. Uma vontade, nem sempre consciente, de ver o que vem depois.
A gente não aguenta mais. E quer ver o que acontece. São coisas que existem juntas, dentro do mesmo peito, sem se resolverem. E essa culpa sentida tem nome, só que ninguém lucraria em te contar qual é.
Amanhã eu vou acordar sem aguentar mais, de novo. E vou aguentar mais um pouco, sem saber muito bem por quê, que é exatamente como tem que ser.



Tmj
" É um sistema elegante, você tem que admitir."
Magnífico!